A Canseira do Amor Próprio

Atualizado: 8 de abr.

por Milene C. Siqueira


Também pode ser ouvido via Podcast


Eu não sei você, mas eu ando bem cansada desse blá blá blá de amor próprio. De que você só será capaz de amar o outro quando amar a si mesma. Isso na verdade parece é muito mais inatingível, desesperador e autocentrado.


E na real, acho que o que a gente queria mesmo, do fundo do coração, era a simplicidade de sempre amar e ser amada!


Mas não tem o pra sempre né? Tudo é impermanente e tá ok.


Além dessa ser a complexa dinâmica afetiva que envolve toda nossa vida, aqui tem também um x da questão. Enquanto o desejo realizado de ser amada nos blinda com um afeto gratuito ou retribuído, ele é em especial um porto seguro, um contentamento para a nossa criança. E tudo bem, porque nem por isso é menos importante, e preenche ou apazigua necessidades que validam a nossa primeira infância, onde a idealização era receber todo amor a experienciar, sendo amado/amada.


Já o amar é o território do amadurecimento, é quando o amor que se dá não visa retribuição. É quando percebemos que o amar é a própria gratificação do amor. Porém, em relacionamentos de casais, amar precisa ser o propósito em comum, ainda que não tão iguais, onde horas vamos amar mais que ser amados e vice-versa. Mas, é a permanência no propósito que dará continuidade, e assim a possibilidade de que tambem dentro do relacionamento hajam curas.


Fato é que, quem ama nesse nível de maturidade será inevitavelmente amado.


Byron Katie, a idealizadora do The Work, fala sobre amor próprio como uma prática de conexão, nós nos conectamos com o nosso amor ao pensar ou estar com o outro, e também ao lavar a nossa louça, escovar os dentes... quando em tudo aquilo que fazemos colocamos conexão afetiva... estamos então praticando, segundo a Katie, o “amor próprio”, ou melhor, o amor que nos é próprio. E conexão é como se define também autocompaixão, onde além de nós, vamos sempre incluir o outro, seja por forma ativa ou em aspiração.


Agora... pensar em fazer algo para lhe conferir amor próprio, como a tal autoestima é mais difundida, é mero efeito cosmético... embora tenha o seu valor estético é isso, coloque água e sabão e mais cedo ou mais tarde, vai emborar! Autoestima é hoje sinônimo de consumo para o mercado, porque você sempre vai achar que precisa fazer algo, ou seja, que precisa consumir, para imaginar-se aceita. E não é apenas a estética em si, mas todo tipo de milagres à venda. E em toda essa dinâmica da autoestima mercadológica, claro que tem muito da nossa cultura capitalista.

E por mais que a gente saiba da importância de todas as formas amorosas de autocuidado e fale da beleza do amor próprio, a verdade é que nem sempre a gente tá disposta ou sente-se capaz de acessar esse auto amor... se fosse fácil, boa parte dos problemas do mundo estariam resolvidos.


Por baixo de toda dificuldade moram traumas, dores, que todos nós temos, e que podem impedir que esse nosso ser habitual, egóico e identificado, desfrute do amor próprio, de dar-se o cuidado e o amor que ele não pôde reconhecer - porque em meio ao dito “amor”, haviam tantas outras sensações... tristezas, raivas, frustrações, indignações, abusos, brigas, solidão, interesses... então o que era, o que é o amor?


Investigar, descongelar cenas, discernir a confusão, olhar com amplidão e compassividade, acessar a sabedoria dos mananciais afetivos, são possibilidades em dar passos rumo à integração dos nossos afetos.

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