Absolvição



"Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.

E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,

que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."

Cecília Meireles


 

Tudo o que se relaciona a nossos afetos, com nosso coração "humano" (esse coração condicional e emocional), está ligado à nossas águas. Especialmente na mulher, nosso ventre também tem essa ligação, como um coração feminino.


Todas nós carregamos marcas emocionais, registros nas nossas células. Registros que vão sendo reencenados, através do próprio magnetismo das nossas águas... E lembrando que nosso corpo assim como a Terra é cerca de 70% de água!


Histórias de dor, de traição, de abusos... em geral, vem seguidas de uma decepção, de um abalo em quem se depositou toda confiança, numa expectativa que nos frustra imensamente, profundamente.


É como se a escolha de nutrir nosso afeto, seja por se sentir segura, amada ou orientada, fosse errada, indevida, mal calculada! Nesse meio, surge a culpa, um auto-flagelo pelo erro, ainda que muito sutil. Passamos a nos diminuir, ou a fazer muitas coisas, incansáveis coisas para que um outro/ou outros nos absolvam do erro, de ser a errada.


É bem comum também que essas falas e amarguras sobre erros, venha dos pais, das escolhas que eles mesmos fizeram e que se punem, e do quanto incutimos essa cobrança também pelo acerto!


O ato simples de escolher, pode se tornar uma tarefa dificílima. Afinal, e se "errarmos" de novo?


Podemos perdoar fora quem nos causou mágoas, grandes feridas. Mas e nós? Nós nos absolvemos também? Liberamos nossas águas, nossos afetos, nossos pseudo"erros"? Nos libertamos para errar?


E como é que a gente pode fazer isso? Identificando, observando, ficando mais íntima nas águas e abrindo espaço. Sair do modo condicional para dar um passo na incondicionalidade do espaço... Não é fácil, mas começar por adentrar nessas camadas internas, aquosas, flexíveis... pode amolecer, facilitar o derretimento das geleiras do "erro".


A visão definitiva de um erro é érrada! É estreita, conclusiva, irreal. Não há como afirmar um erro, se o que temos é só uma parcela, uma visão restrita, limitada. Embora, sim possamos nos arrepender, receber lições dos "erros" e criar situações diferentes, ainda assim, não sabemos.


Olhar o outro, voltar a confiar, sem uma expectativa sobre o comportamento do outro. Se liberar, voltar a se afirmar para o mundo, voltar a dançar com as circunstâncias, encontros e crescer em presença, em ser presente para o outro e para si mesma - é um caminho, que começa lá na auto observação.


Poder se cercar também de momentos afetivos, de auto cuidado, de generosidade consigo, mas com a atenção de não fazer do auto cuidado um lugar de fuga, de camadas superficiais. Se absolver diariamente, como quem entra em águas batismais, deixando as agruras do ego de lado.


Milene Siqueira





15 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo