Culpa x Arrependimento

Atualizado: 5 de abr.


por Milene C. Siqueira


Culpa é considerada uma instância psíquica normal. Está ligada às normas padronizadas x a necessidade de pertencimento. Ou seja, a "noção" de culpa faz parte da formação do ego. E quando não faz, temos à frente um quadro provável de psicopatia.


A culpa é um preceito moral, um julgamento.

Sentimos culpa por aquilo que julgamos errado em nós ou no outro (projetada muitas vezes), mas que no fundo há uma contradição com a nossa natureza essencial.


Tanto culpar quanto sentir-se culpado, dá um sentido de superioridade sobre o outro e sobre a natureza das coisas, ou da própria - de si mesmo, numa falsa superação. Ainda que espiritualmente só nos empobreça, por fortalecer a ideia de separação.


E somos exímios em sentir culpa, inclusive por tudo aquilo que é humanamente "natural"! Exímios o quanto mais é nosso desejo em pertencer (paradoxal).


Até comer uma pizza pode gerar culpa. Se o que queremos é pertencer ao grupo dos "sarados", por exemplo.

E uma sugestão aqui é começar a perguntar-se a que e por que pertencer.


Há culpas de vários níveis. As agudas, como grandes "pesos" na consciência. Culpas da nossa criança, crônicas, talvez já nem mais percebidas, mas agindo na inconsciência. E culpas menores, quase que rotineiras.


Culpa é falta. Culpa gera uma informação de escassez no nosso sistema (no ex. acima da pizza, pode acontecer do organismo reter mais calorias).

Culpa nos diz sobre exigência de pagamento/punição.

Culpa cala, somatiza, aprisiona, reduz.


Por fortalecer a identidade, na culpa não há florescimento.

Se um dia a noção de culpa foi uma necessidade condicional de merecimento para se ajustar diante aos pais, professores, ambientes, etc - hoje, essa busca, esse lugar, não faz mais sentido. O único sentido que tem é reconher essas necessidades como passadas, questioná-las e ir além no seu ser, até perceber que o amor real já te habita como incondicional.


Na psicoterapia a culpa não é julgada, nem rejeitada, é lugar de aprofundamento e compreensão, que nos leva a lugares até então não integrados.

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Já o arrependimento é a capacidade de escolher sua resposta ao mundo para agir de forma assertiva e clara, luminosa e compassiva. Por isso, se diz, que arrepender-se é transformar-se.

No arrependimento, olhamos para além, para aquilo que não precisa mais ser repetido e para os ensinamentos obtidos.

E é paradoxal que o arrependimento chegue normalmente com a consciência dos próprios sentimentos de culpas passadas, sobre aquilo que foi ignorado, sobre atitudes condicionadas e não compassivas (conosco e o outro). O arrependimento é resultado de um olhar amplo, e é libertador.



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